Arte, Elas

MARINA ABRAMOVIC E A CONEXÃO QUE ESTABELECE ENTRE ARTE E ESPIRITUALIDADE

Por Beatriz Pinho | 14 de junho, 2016

“Um ícone da arte contemporânea”. “Uma das artistas mais polêmicas da atualidade”. “A avó da performance”. “Louca, sádica e masoquista”... Bem provável que nenhum desses títulos seja justo ou digno o suficiente para falar de Marina Abramovic, aquela que gostaria mesmo é de ser considerada, como ela mesma diz, como “uma guerreira da arte”.

Essa arte, no entanto, a que ela se refere transcende em muito o conceito que estamos acostumados, e passa bem longe daquilo que fomos educados a entender como belo. Pois ultrapassa, inclusive, a barreira do tangível e da materialidade. A arte de Marina Abramovic, ela explica, serve-se, quase que exclusivamente, de energia. A performance, então, é algo que se sente. Seus trabalhos são pura experiência e se baseiam na exploração das relações entre artista e plateia, exploram os limites do corpo e as possibilidades da mente.

A artista, hoje com 69 anos, começou a ganhar destaque nos anos 70, com trabalhos em que o público e seu próprio corpo faziam o papel de obra. Dentre seus atos, muitas vezes, vistos como radicais e agressivos, já se teve a oferta de facas e revólveres para a plateia fazer o que quisesse diante de Abramovic; correr e se arremessar contra a parede repetidas vezes; trocar tapas no rosto ininterruptamente; deitar dentro de uma estrela em chamas até desmaiar pela falta de oxigênio; ou permanecer sentada durante horas a fio e dias seguidos, enquanto milhares de pessoas passavam pela artista, sentavam a sua frente e a contemplavam pelo tempo que quisessem. Esta inclusive, chamada de ‘A Artista Está Presente’, ficou conhecida como uma de suas mais marcantes apresentações, e ocorreu em 2010, no MOMA, durante a exposição que fazia uma retrospectiva de sua carreira. (Ficou curioso? Vale uma fuçada neste e neste link). Seus atos sempre se mostraram como polêmicos, mas invariavelmente, as performances também era causadores de fortes emoções.

Suas experiências mais recentes, porém, são marcadas por uma busca de emoções mais espiritualizadas e introspectivas. Seu mais novo documentário, aliás, ‘Espaço Além’ - dirigido por Marco del Fior, e que está em cartaz em várias cidades brasileiras desde maio - é um perfeito retrato dessa sua investigação.

O longa conta a história da jornada mística rumo a “sublimidade da dor” de Marina Abramovic. Sua fotografia de tirar o fôlego, conduzida pela constante e instigante voz da artista, que faz reflexões de grande entrega ao longo do filme, acompanham o percurso da performer por seis estados brasileiros, em busca de outras dimensões da realidade e de sua cura espiritual. Isso se traduz em visitas a territórios de candomblé, cerimônias xamânicas, rituais de ayahuasca, experiências com diferentes cultos de cura e vivências de adoração a ícones pagãos.

O filme torna-se o reflexo de um Brasil distante de regras sociais e de imagens clichês, além da reprodução de um diálogo singular, respeitoso e genuíno entre artista, público, cultura e espiritualidade. Torna-se, por si só, uma obra de troca de energias, em que a consciência se amplia e acaba por atingir, assim, o objetivo da própria Marina, no que ela entende pela finalidade da arte. É bem sucedido em argumentar com clareza e com beleza o porquê de Marina Abramovic ser considerada umas das mais intrigantes e profundas mulheres e artistas dos últimos tempos.